25 de fevereiro de 2026

Já sentiu desconforto ao ler uma verdade que tentou esconder de si próprio(a)

Esta é uma realidade que vejo com frequência nas minhas consultas. Histórias de vidas vividas em silêncio, escolhas feitas por medo e corações que aprenderam a calar-se.

Viviam juntos há anos. 
A casa era bonita, organizada, cheia de fotografias de momentos felizes. 
Para quem via de fora, eram um casal estável, uma família exemplar. 
Sorrisos nas festas, mãos dadas nos jantares de família, conversas normais sobre o dia.
Mas dentro dela havia silêncio.
Não era um silêncio tranquilo. 
Era pesado, constante, como um peso no peito que nunca desaparecia. 
Amava outra pessoa. 
Um amor que nunca teve coragem de viver. 
Um amor guardado, escondido até de si própria, transformado numa ausência permanente.
Um amor que por mais que tentasse esquecer, não conseguia. 
Doía a alma, não o escolher... mas não podia...
O marido era um homem correto. 
Bom pai. 
Presente. 
Nunca lhe faltou respeito, nem conforto, nem estabilidade. 
Faltava apenas o essencial.
Amor.
Muitas noites, deitada ao lado dele, o diálogo repetia-se dentro da sua cabeça.
Como posso deixar tudo isto? 
A minha casa… os meus filhos… como vão ficar? 
Vão zangar-se comigo?
E ele? 
Como vai ficar sozinho depois de tantos anos? 
Não merece isso.
E a minha família? 
O que vão dizer? 
Vão julgar-me.
E assim ficava. 
Paralisada entre o que sentia e o que temia.
Os anos foram passando. Primeiro adiou por causa dos filhos pequenos. Depois por causa da escola deles. 
Depois porque já era tarde demais. 
Depois porque mudar parecia impossível.
A rotina tomou conta de tudo. 
Conversas sobre contas, compras, compromissos. 
Vidas organizadas, corações vazios.
O amor que sentia pela outra pessoa não desapareceu completamente. Transformou-se numa lembrança persistente, numa pergunta sem resposta: e se eu tivesse tido coragem?
Envelheceram juntos.
Os filhos cresceram e seguiram a sua vida. 
A casa ficou silenciosa. 
O marido continuava ao seu lado, com os mesmos gestos, a mesma presença tranquila.
Um dia, já com o rosto marcado pelo tempo, sentou-se sozinha na sala. Olhou para as fotografias nas paredes. 
Anos de vida. Anos de escolhas.
Sentiu um vazio fundo.
Percebeu que tinha vivido uma vida inteira com medo. Medo de ferir, medo de ser julgada, medo de mudar. 
E nesse medo deixou de viver aquilo que realmente sentia.
A tristeza não vinha apenas por não ter vivido aquele outro amor. 
Vinha por não ter sido verdadeira consigo própria.
Não tinha protegido ninguém do sofrimento. Apenas tinha adiado o seu próprio.
E percebeu, tarde demais, que a ausência de conflito não é felicidade. 
Que viver sem amor também é uma forma lenta de infelicidade.
Ficou ali, entre memórias e arrependimento, sentindo o peso de uma vida inteira vivida pela aparência.

Conselho final
No fim, a vida ensina que o medo protege o conforto, mas rouba a verdade. 
Não tomar decisões também é uma decisão, e muitas vezes é a que mais custa. 
Não vivas apenas para corresponder às expectativas dos outros. 
A tua vida é tua responsabilidade. 
Ter coragem pode doer por um momento, mas viver sem amor pode doer uma vida inteira.
Adiar uma decisão por décadas é, muitas vezes, escolher uma "morte lenta" em vez de uma "cirurgia de emergência".

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