11 de agosto de 2026

Há quem diga...

Há quem diga:
“Eu sou discreta.”

Mas, às vezes, aquilo a que chamamos discrição começou muito antes de ser uma escolha.

Talvez, em algum momento, tenhamos aprendido que aparecer demasiado não era seguro.
Que ocupar espaço incomodava.
Que brilhar podia trazer críticas, afastamento ou rejeição.

Há quem diga:
“Eu não gosto de conflitos.”

Mas talvez discordar tenha tido um preço.
Talvez dizer “não”, pensar diferente ou defender uma escolha tenha colocado em risco algo muito importante: o sentimento de pertença.

E há quem diga:
“Eu não sei posicionar-me.”

Talvez porque nunca tenha sentido que podia fazê-lo.

Há momentos na vida que tocam precisamente nesta ferida:

Quanto valor precisamos de sentir em nós para conseguirmos sustentar aquilo em que acreditamos, mesmo quando alguém discorda?

Porque falar é relativamente fácil.
Continuar inteira quando o outro não concorda connosco é outra coisa.

E é aí que começamos a perceber que nem toda a fala é comunicação.

Às vezes, é defesa.
Às vezes, é sedução.
Às vezes, é manipulação.
Às vezes, é apenas uma tentativa desesperada de sermos compreendidos.

E talvez uma das descobertas mais desconfortáveis seja esta:

Por vezes, não queremos apenas ser ouvidos.
Queremos que concordem connosco.

Queremos a confirmação de que estamos certos.
Queremos que o outro valide aquilo que ainda não conseguimos sustentar sozinhos.

Então, como deixamos de romantizar os nossos próprios padrões?

Primeiro, retiramos o véu.

Olhamos para aquilo que fazemos sem lhe dar um nome mais bonito para não termos de enfrentar a sua origem.

Depois, começamos a escolher diferente.

Talvez seja necessário dizer a nós próprios:

“Eu ocupo o meu lugar e permito que a prosperidade me encontre nele.”

“Eu não preciso de permanecer pequena para continuar a ser amada.”

“Eu deixo com cada um o seu destino e sigo em direção ao meu.”

“Eu honro quem veio antes de mim sem precisar de repetir os seus limites.”

“Eu posso ir além sem deixar de pertencer.”

Porque, numa família, cada um tem o seu lugar e a sua história.

Honrar quem veio antes não significa viver exatamente como eles viveram.
Amar não significa repetir.
Pertencer não significa diminuir-nos para cabermos.

Talvez uma das formas mais bonitas de honrar uma árvore genealógica seja permitir que a vida continue através de nós.

As raízes ficam.
Mas os ramos podem crescer mais alto.

Nem todos chegarão à mesma compreensão ao mesmo tempo.
Nem todos precisam de chegar.

Há coisas que só conseguimos ver quando estamos preparados para olhar para elas.

E quando chega esse momento, talvez percebamos que ir além não é abandonar aqueles que vieram antes.

É receber aquilo que nos deram, reconhecer aquilo que não lhes foi possível viver e continuar o caminho.

Porque uma árvore não trai as suas raízes quando cresce.

Cumpre-as.
Adriana Monteiro 

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